Vapores inebriantes de dezembro
(Ana Echevenguá)
“Eu te peço perdão por te amar de
repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos. Das horas que passei
à sombra dos teus gestos Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos...”
– Ternura, Vinicius de Moraes.
A
intersecção dos caminhos de duas pessoas
não é obra do acaso. E o cenário desse momento não exige regra. Ele está
ali. Ela chega. Olham-se. Cheiram-se. Percebem-se... e a mágica surge. Quem não
tem uma história assim pra contar? Pra lembrar ou reviver?
Até
os maiores sedutores – citados por Robert Greene em “A arte da Sedução” –
viveram amores comuns, em lugares comuns.
Pois
bem...
Era
noite lá fora. Ela entrou em uma cozinha quente de uma pousada da Província.
Odores adocicados espalhavam-se preguiçosamente pelos quatro cantos. Olhou os
pequenos gestos do homem à sua frente. Ombros largos. Mãos grandes e firmes. Dedos
longos. Um estranho que cortava ameixas com a paciência de quem acaricia a
amante. Sem pressa... Como se fosse a tarefa mais importante do mundo.
E
esse homem especial passou a falar de coisas comuns. E ela ficou encantada com
sua voz, com sua forma de pronunciar pausadamente as sílabas de cada palavra,
evidenciando breve intervalo entre essas.
Um
monólogo excitante onde a sonoridade sobrepujava o teor. Como uma velha canção
em seus ouvidos...
Sem
olhares profundos, abraço envolvente ou um beijo de final feliz. Sem o exaspero
das lágrimas nem a fascinação das promessas. Ao lado daquele homem especial, ela
esqueceu o cansaço do dia, os transtornos momentâneos e se permitiu ficar,
extasiada, à sombra de seus gestos.
Hoje,
lembrar desses momentos “É um sossego,
uma unção,um transbordamento de carícias”, como disse o poeta.
Momentos
que o arquivo da memória saberá guardar. Envoltos em uma diáfana cortina de amor.

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