Meu amor pretérito; meu ser
amado ausente... (Ana Therra)
Caminhantes (Antoine de
Saint-Exupéry) – “Cada
um que passa em nossa vida, passa sozinho porque cada pessoa é única prá nós, e
nenhuma substitui a outra... Cada um que
passa em nossa vida, passa sozinho, mas não vai só... Cada um que passa em nossa vida, leva um
pouco de nós mesmos, e nos deixa um pouco de si mesmo... Há os que levam muito,
mas não há os que não levam nada... Há os que deixam muito, mas não há os que
não deixam nada...”
Ela ficou ali, parada, estática,
sem pensar, sem conseguir raciocinar direito, sem respostas às tantas perguntas
que lhe martirizavam insistentemente. Ele não apareceu na hora marcada, para a
viagem de sonhos. Apenas não apareceu...
Desencontro?
Acidente? Desistência? Medo de ousar? De expor-se a vitórias e derrotas?
Preferência por formar fila com os pobres de espírito, que não sofrem nem gozam
muito, porque nunca conheceram derrota nem vitória? A falta de comunicação era
inaceitável ainda que compreensível, dada a circunstância atual. Ouvia, ao
fundo, um voz amável que lhe dizia: - ‘Moça, esse ônibus tem que pegar a
estrada!’
Que estrada? Havia perdido o rumo, o
prumo, a noção de tempo e de espaço! Ir? Ficar?
Passava da meia-noite. Permitiu que o
ônibus partisse e a levasse consigo. Sentou-se confortavelmente. Olhou o céu
tão negro enfeitado pela lua mais redonda e branca que jamais anteriormente
vira. A lua que abraça friamente o soldado já morto e os namorados. Não
choraria, embora nada mais quisesse fazer naquele momento. Queria chorar, dizer
o quanto estava sofrendo, gritar, quebrar os vidros da janela, senti-los
penetrando sua carne e, após, sentir o calmante do sangue morno brotando da
ferida exposta... mas, aquela lua, tão altiva e singular, lhe pedia para ser
paciente. ‘Pega na minha mão, lua; leva-me contigo!'; acalma meu peito que
parece querer explodir. Já senti dor igual? Não sei, não lembro... as dores são
parecidas? Elas diferem no nascedouro tão somente.
Matematicamente, analisou seus próximos
passos. Caminhar sozinha? Isso é difícil? Não; na verdade, ela e o ser amado e
ausente nunca caminharam lado a lado. Nunca tiveram objetivos comuns. O ser
amado sempre foi um ser ausente, sempre fez parte de uma outra comunidade,
sempre cultivou a distância entre os dois. Ela, na sede de construir castelos,
preferiu ignorar a realidade. Foi amada? Não. Foi desejada? Tanto quanto se
deseja vinho tinto, carne assada... objeto de consumo imediato. ‘Sempre tive todas as mulheres que quis’
– o garanhão e sua estante de troféus. Tantas promessas, tantos planos – um admirável mundo novo logo
ali, tão ao seu alcance... do final da manhã de uma sexta aos primeiros raios
do sol de uma segunda-feira, viveram um mundo só deles, todo de emoções e
sonhos, de transbordamento de amor.
Tudo pode acontecer no momento mais
inesperado, desde que haja cumplicidade do destino.
Foram momentos maravilhosos de intensa
paixão; por longas horas, exercendo o livre arbítrio, decidiram viver, ser
felizes. Escolheram estar intensamente
apaixonados... viveram uma ilusão? Não; um grande romance!!... criaram sua
própria história, a que quiseram (fazendo uso de um ‘pretérito perfeito’), com
quem quiseram, do jeito que quiseram, na hora aparentemente mais propícia.
Como
não há os que não deixam nada, deixaste um vazio que custará a ser preenchido.
Pena de ver tanto amor fracassar! Há,
meu amor pretérito, que pena!!
A vida é assim – uma professora cruel
que não permite que os iludidos sejam vitoriosos.
Ernesto Gardenal tem uma frase machista:
‘poderei amar outras mulheres como amei a
ti; mas ninguém te amará como eu te amei!’
Ah! Meu amado
ser ausente, poderei
amar outros homens como amei a ti... tomara que alguém te dedique o mesmo amor
– cego, desenfreado, eivado de sonhos - que te dediquei!

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