As cicatrizes de Maria
(Série Kintsugi do Coração — Ep. 01)
Maria aprendeu cedo que o corpo guarda memórias como quem
guarda cartas antigas: dobradas, escondidas, mas nunca esquecidas. Quando passa
a mão pela pele, sente histórias inteiras respirando sob cada marca — não como
feridas, mas como constelações.
A primeira cicatriz é tão fina que parece desenhada pelo
vento.
Foi o dia em que ele disse que “não era nada”.
E Maria acreditou — como acreditam tantas, num país onde
o silêncio ainda é a língua mais falada dentro de casa.
A segunda cicatriz tem a profundidade de um susto que
demorou a passar.
Foi o dia em que ela percebeu que o amor pode virar
sombra e o lar, labirinto.
Maria não sabia que uma mulher é assassinada a cada sete
horas no Brasil. Mas sentia a estatística respirando atrás da porta.
A terceira cicatriz não mora no corpo.
Mora na chave nova que ela gira todas as manhãs. No café
bebido sem medo. Na rua onde caminha sem olhar para trás.
Mora na mão estendida de quem a acolheu — na escuta sem
pressa, no cuidado que devolveu seu nome, na rede que recolheu os cacos para
mostrar que dali ainda nascia vida.
Em Florianópolis, mais de dez mulheres por dia procuram
essa mesma ajuda. Maria foi uma delas. E encontrou o caminho.
Maria descobriu que cicatrizes não são lembranças da
violência. São lembranças da travessia.
São como no Kintsugi — o ouro que preenche a
rachadura para mostrar que o remendo também pode ser luz.
Hoje, ao lembrar do passado, Maria não descreve o que a
feriu.
Descreve o que a salvou.
Maria não é estatística.
Maria é poema.
E suas marcas são os versos que escreveu com o próprio
corpo para lembrar que está inteira.
Ana Echevenguá (Da série Kintsugi do Coração:
Mulheres que brilham nas próprias cicatrizes)

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