O amor devolvido a Celina
(Série Kintsugi do Coração — Ep. 02)
Celina parecia tecida pelas páginas de Jane Austen. Numa
época – início do século XX – em que alcançar os 28 anos solteira pesava como
sentença sobre a mulher, casou-se às pressas com o primeiro pretendente. O pai
abençoou a união e presenteou o casal com três imóveis, tal qual o ‘dote de
noiva’ que Austen tanto evidenciou em sua obra.
Mas o tempo desfez a promessa do ‘foram felizes para
sempre’. Celina não pôde ter filhos e foi privada de cultivar amizades; seus
passos limitavam-se ao trajeto até a igreja local nas horas de missa... Sob o
temperamento agressivo do marido, viu seus dias desbotarem: sem perceber,
tornou-se mais zeladora da casa do que esposa.
Os dias escorriam tristes, enquanto ela tentava inventar
uma fórmula mágica para resgatar o que nunca existiu.
Até a noite em que o silêncio se fez ríspido: não
vamos mais dormir juntos; você vai dormir em outro quarto; tenho outra mulher.
E não reclame, tens que aceitar...
Buscar amparo na família de nada adiantou. Em uma
sociedade profundamente patriarcal, a infidelidade masculina não causava
espanto, mas conformismo; à mulher, cabia apenas engolir o próprio choro.
Celina tornou-se uma mulher amarga, triste, recolhida à
própria sombra. Quando ele adoeceu, exigiu que a outra o acompanhasse ao
hospital — e lá ela permaneceu até o último sopro dele.
Naqueles dias, Celina pensou em morrer, só para não ter
que aprender a existir sem o homem que ainda amava. Mas o tempo, esse artesão
silencioso, guarda caminhos que a ferida não consegue prever.
Aos poucos, a vida voltou a pedir passagem. Sempre gostou
de acolher os animais abandonados que vagavam pelas ruas da cidade, eram seus
momentos de paz, de reconexão com outros seres vivos.
Aos poucos, o desejo de maternar, sufocado por tanto
tempo, encontrou uma nova e iluminada travessia: Celina transformou um de seus
imóveis em um refúgio de afeto. A casa, antes fria e ecoando solidão, encheu-se
de passos leves, olhares gratos e do amor sincero dos pets que ali encontravam
renascimento.
Como no Kintsugi, a história de Celina nos lembra
que o vaso quebrado não precisa permanecer em ruínas. O ouro não apaga as
marcas do abandono, mas une os cacos para erguer uma arte inteiramente nova —
capaz de abrigar novas formas de amar, cuidar e florescer.
Celina não é a amargura que a feriu.
Celina é o lar que reconstruiu.
E as cicatrizes que carrega são hoje o brilho dourado de
quem aprendeu que o amor sempre encontra um meio de recomeçar.
Ana Echevenguá
(Da série Kintsugi do Coração: Mulheres que brilham
nas próprias cicatrizes)

Comentários
Postar um comentário