O amor que não cabe na tela
“Algumas dores não querem matar o corpo — querem apenas
que morra o que nos faz sofrer.”
(Série Kintsugi do Coração — Ep. 06 Especial Setembro
Amarelo)
Martha tinha quinze anos quando descobriu que o mundo podia
caber dentro de uma tela.
Jonathan era o colega de escola de riso fácil e vida
movimentada. Para Martha, que acompanhava seus passos em segredo, ele parecia
invencível.
Sem coragem de dar um passo real em sua direção, ela
construiu uma rotina de checagens diárias nas redes sociais. Acompanhava cada
foto, cada festa, cada vitória, vivendo um amor silencioso e idealizado, onde
dia e noite se confundiam em projeções do que poderiam ser juntos.
Enquanto Martha imaginava um futuro inteiro para os dois,
Jonathan carregava uma dor que não cabia em postagem alguma.
Até que a realidade irrompeu sem aviso.
Numa tarde cinzenta, a notícia chegou pelo grupo de amigos:
Jonathan morreu, havia tirado a própria vida.
O choque foi devastador. Para Martha, a dor foi fulminante.
Como podiam aquelas fotos cheias de luz esconder um abismo
tão fundo? Onde estava o sinal que ninguém viu?
A culpa, violenta e injusta, tomou conta do seu peito. O
amor idealizado transformou-se instantaneamente num luto pesado, denso,
sufocante.
Diante da finitude daquele garoto de quinze anos, o mundo de
Martha perdeu a cor. Veio a vontade súbita de fechar os olhos, sumir,
desaparecer — de morrer junto com aquele sentimento.
Durante meses, Martha chorou a dor do silêncio de Jonathan e
o peso da sua própria impotência. Ficou no escuro até compreender que a culpa
não era dela, nem de ninguém; mas que a sua dor precisava de um lugar seguro
para ser acolhida.
E, pela primeira vez, Martha desligou o celular e olhou para
o espelho. Viu seus olhos marejados, a sua fragilidade e a urgência da vida que
ainda pulsava nela. Percebeu que a melhor resposta à tragédia não é o abismo,
mas a presença.
Morrer de amor, Martha aprendeu, não é apagar a própria
existência. É deixar morrer a ilusão de que podemos controlar tudo, para dar
lugar à coragem de pedir ajuda, de falar sobre a dor e de estender a mão a quem
precisa.
Ao colar os cacos daquele luto com o ouro do afeto e da
autocompaixão, Martha fez a escolha mais corajosa do seu Setembro Amarelo:
escolheu falar, escolheu acolher as suas cicatrizes e, acima de tudo, escolheu
viver.
Ana Echevenguá
(Da série Kintsugi do Coração: Mulheres que brilham nas
próprias cicatrizes)

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