O leve peso do amor
“Para quem já perdeu um amor que não fala, mas entende tudo.”
(Série Kintsugi do Coração — Ep. 09)
Giovanna nunca gostou de ficar sozinha. Mudou de casa, de cidade, de parceiros, de vida inteira — mas nunca precisou vivenciar a verdadeira solidão.
Alfonsin estava lá. Um gato preto, elegante, desses que carregam no olhar uma sabedoria antiga, como se soubessem de caminhos que nós, humanos, nem sequer vislumbramos.
Ele a acompanhou em tudo. Nas madrugadas frias. Nas caixas de mudança. Nos desamores. No sucesso profissional. Nos dias em que ela achava que não conseguiria continuar...
E quando o câncer chegou, ele permaneceu ao seu lado. Deitava sobre o peito dela como se acariciasse o coração com as próprias patas. Ficava horas ali, respirando junto, aquecendo o medo, dissolvendo a dor... Giovanna dizia que era carinho. Mas sabia, no fundo, que era cura. Afinal, o amor de verdade dispensa palavras.
Giovana curou-se. E, assim, um dia, Alfonsin, sem aviso, sem despedida, sem drama… partiu para o mundo espiritual dos animais.
Giovanna não chorou no primeiro dia. Nem no segundo. A saudade veio devagar, como quem respeita o tempo do luto. Mas quando chegou, chegou inteira, volumosa, acompanhada da solidão, ocupando todos os cantos da casa e do peito.
Hoje, ela ainda entra em casa com a sensação de que ele estará lá à sua espera... Ainda dorme virada para o lado onde ele costumava se enovelar num sono manso. Ainda sente o peso leve dele sobre o peito... Não o peso físico, mas o outro — aquele que ficou impregnado na sua alma.
Porque alguns amores não acabam. Eles apenas mudam de dimensão.
E Alfonsin… Alfonsin agora é memória, é luz, é amor com a certeza dos reencontros... É o kintsugi do coração de Giovanna — a rachadura que aprendeu a brilhar.
Ana Echevenguá
(Da série Kintsugi do Coração: Mulheres que brilham nas próprias cicatrizes)

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